A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem assumido um papel de crescente projeção no cenário político nacional, posicionando-se como uma das principais vozes da direita brasileira após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro em agosto de 2025.
Sua atuação, que ganhou maior visibilidade a partir da campanha eleitoral de 2022, consolidou-se com sua presidência do PL Mulher e uma série de articulações partidárias pelo país.
Em discurso durante evento em Fortaleza no final de novembro, Michelle Bolsonaro afirmou a uma plateia majoritariamente feminina: “Nós somos maioria, e nós definimos uma eleição”. A fala sintetiza sua estratégia de mobilização do eleitorado feminino em torno de uma plataforma conservadora e cristã.
Trajetória Pessoal e Início na Vida Pública
Nascida em Ceilândia (DF), filha de um motorista de ônibus aposentado e uma dona de casa, Michelle Bolsonaro construiu uma imagem pública vinculada a causas sociais, especialmente relacionadas à comunidade surda, atuando como intérprete de Libras.
Durante a maior parte do mandato do marido, ela manteve um perfil discreto, focado em projetos assistenciais.
Sua atuação política ganhou contornos mais definidos em 2023, ao assumir a presidência do PL Mulher, cargo que proporciona um salário superior a R$ 40 mil. Desde então, lidera uma campanha nacional de filiação de mulheres ao partido, que já registrou a adesão de mais de 50 mil novas filiadas.
Crise no Ceará e Tensões Internas
Um episódio emblemático de sua influência ocorreu em novembro de 2025, quando Michelle se opôs publicamente a uma aliança do PL no Ceará com o ex-candidato à presidência Ciro Gomes (PDT).
Em discurso em Fortaleza, ela criticou a cúpula do partido e reafirmou sua autonomia à frente da legenda feminina. A pressão resultou na suspensão das negociações, mas também acentuou tensões com os filhos de Jair Bolsonaro, que classificaram sua intervenção como autoritária.
Analistas políticos avaliam que essa disputa interna foi um dos fatores que levaram o ex-presidente, então preso, a anunciar oficialmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu candidato preferencial à Presidência em dezembro, um movimento interpretado como um reequilíbrio de forças.
Cenário Eleitoral e Desafios
Pesquisa Ipsos Ipec divulgada no início de dezembro de 2025 coloca Michelle Bolsonaro com 23% das intenções de voto para presidente, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (38%), mas à frente de Flávio Bolsonaro (19%) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (17%).
Sua ascensão gera reações diversas dentro do espectro político. O ex-deputado e ex-coordenador da Lava-Jato, Deltan Dellagnol, a define como “a segunda maior liderança política da direita no Brasil”. Já a deputada federal Bia Kicis (PL-SP) atribui seu crescimento a um ganho de confiança no exercício da liderança partidária.
Contudo, há resistências. Fontes internas ao PL avaliam que o episódio no Ceará pode ter prejudicado sua viabilidade em uma chapa presidencial. Analistas, como Yuri Sanches, da AtlasIntel, apontam que setores da direita e do centrão buscam construir uma autonomia em relação ao núcleo familiar bolsonarista.
Contexto Familiar e Judicial
Michelle Bolsonaro é mãe de duas filhas: Letícia, do primeiro casamento, e Laura, com Jair Bolsonaro. Em 2020, seu nome foi associado a investigações sobre repasses do ex-assessor Fabrício Queiroz, que teria depositado R$ 89 mil em sua conta. O caso foi posteriormente arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ilegalidades na investigação.
Com a prisão do marido, condenado a 27 anos e três meses por crimes contra o Estado Democrático, Michelle tornou-se uma das principais porta-vozes públicas da família, participando ativamente da definição dos rumos políticos do bolsonarismo.
Seu futuro político, seja como candidata ao Senado, à Presidência ou à vice-presidência, deve ser definido ao longo de 2026, em um cenário de disputa interna pela herança política de Jair Bolsonaro e pela liderança do eleitorado conservador. Com: BBC