Amigos abrem telhados: a fé entre irmãos e o exemplo do paralítico

A experiência religiosa, em muitas tradições cristãs, não se restringe ao âmbito individual. Ela frequentemente se constrói e se fortalece na comunhão com o outro — na voz que insiste quando o fôlego já se foi, no olhar que persiste quando os caminhos parecem interrompidos, ou na presença silenciosa de quem permanece; Uma fé entre irmãos.

A passagem bíblica sobre o paralítico de Cafarnaum, levado por quatro amigos até Jesus, continua a oferecer, por sua força simbólica e prática, reflexões sobre amizade, responsabilidade afetiva e fé partilhada.

O episódio é narrado em três dos quatro evangelhos sinóticos (Mateus 9.1-8; Marcos 2.1-12; Lucas 5.17-26). A cena descreve o esforço de quatro homens para conduzir um amigo enfermo até Jesus. Impedidos pela multidão que lotava a casa, eles subiram ao telhado, abriram uma abertura e desceram a maca diante do Mestre. O versículo 5 do evangelho de Marcos registra: “E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados”.

O pastor Jailton Félix, da cidade de Rio Bonito (RJ), chama atenção para um detalhe teológico frequentemente negligenciado: o texto bíblico não destaca a fé do homem enfermo, mas sim a dos seus amigos. “Jesus não viu a fé do paralítico, Jesus viu a fé dos amigos”, afirma. Essa leitura, segundo ele, convida a uma reflexão sobre o tipo de relacionamentos que cultivamos.

“É muito importante que nós tenhamos o discernimento para nos cercar de amigos que tenham fé. Junte-se com pessoas que tenham fé, porque nos momentos de adversidade, nos momentos de dúvida, quando você mesmo estiver desmotivado e achar que não vai conseguir, eles sempre estarão do seu lado dizendo: ‘você vai vencer, nem que para isso eu tenha que te carregar e te levar por cima do telhado, mas você vai chegar lá’”, orienta o pastor.

Essa lógica da fé compartilhada não é uma novidade. A tradição cristã, ao longo dos séculos, tem valorizado a comunidade como espaço de amparo, correção e encorajamento mútuo. O apóstolo Paulo já instruía os cristãos da Galáxia com a seguinte recomendação: “Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6.2).

Curar como ato de reintegração

Para o pastor Leone Moura, de Novo Hamburgo (RS), o significado do milagre vivido pelo paralítico que vivenciou a fé entre irmãos, ultrapassa a dimensão da cura física.

Ele lembra o contexto cultural do período, no qual doenças eram associadas ao pecado pessoal ou hereditário. “A pessoa carregava não apenas a dor psicológica de não ter, às vezes, a visão ou não andar, ou ter alguma outra doença que afastava ela da sociedade, mas também tinha que conviver com o peso da sociedade que impunha sobre essa doença um pecado, ou dele ou dos seus antepassados”, explica.

Nesse sentido, ao curar o homem, Jesus também o restaurava social e espiritualmente. “Jesus, além de curá-lo, estava inserindo de novo essa pessoa à sociedade, como alguém transformado, renovado em todas as áreas de sua vida”, diz Leone. A fé entre irmãos, portanto, não apenas viabilizou uma cura física, mas foi instrumento de reintegração plena daquele homem à vida comunitária.

Ser o que o outro não consegue ser

O gesto de carregar alguém até Jesus é, para os pastores, um símbolo potente da missão cristã de cuidado mútuo. “Talvez eles não estejam paralíticos, mas falte ânimo a eles. Que nós sejamos esse ânimo e que nós possamos levá-los àquele que cura, não apenas as nossas doenças e enfermidades físicas, mas também àquele que vai além, que perdoa e apaga os nossos pecados e nos insere de novo na sociedade”, propõe o pastor Leone.

Na prática, isso significa agir quando o outro está sem forças. “Nós temos que ser, para as pessoas que precisam, o que eles não podem ser. Nós temos que fazer por eles o que eles não conseguem fazer. Nós temos que ir aonde eles não conseguem ir”, continua.

“Cerque-se de amigos que acreditam”, insiste o pastor Jailton. Em um mundo que frequentemente exalta a autonomia individual, a imagem desses quatro homens rompendo o telhado para garantir que alguém encontrasse esperança ganha renovada relevância.

A história do paralítico de Cafarnaum permanece viva porque expõe uma verdade elementar: ninguém caminha sozinho. E quando falta força, é a fé do outro que pode abrir telhados e reconstruir caminhos. Com: Comunhão.