Em meio à guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, a igreja brasileira se viu em meio a debates éticos a respeito da celebração da iminência da queda de um regime opressor. A especialista em comunicação Sarah Nour, que é uma cristã iraniana, compartilhou a percepção dos seguidores de Jesus no território ainda governado pelos aiatolás.
Sarah Nour é um pseudônimo adotado por questões de segurança, e o contato com o GospelMais foi intermediado pela Missão Portas Abertas, que a descreveu como uma “defensora dedicada à Igreja Perseguida”. Servindo aos cristãos de língua persa, na prática sua atuação é a de uma mensageira que empresa a voz àqueles que são silenciados pelo contexto em que vivem.
“Sarah viaja frequentemente pela região, encontrando-se com líderes da igreja, refugiados, sobreviventes e irmãos e irmãs que compartilham suas histórias impactantes e experiências inspiradoras com Jesus”, diz a Portas Abertas.
Diante do cenário de polêmicas sobre a iminente queda do regime iraniano, a cantora Ana Paula Valadão expressou sua satisfação em ver a precisão dos ataques militares que, no futuro, poderão ser entendidos como parte do capítulo que marcou o fim da opressão teocrática no país. Em resposta, representantes dos chamados “cristãos de esquerda” no Brasil, como o bispo Hermes C. Fernandes e o ex-pastor e sociólogo Valdinei Ferreira, teceram críticas agudas à artista.
Sarah Nour, entretanto, compartilha uma leitura mais fria a respeito dos pormenores éticos e mais pragmática quanto aos eventuais resultados da atual guerra em andamento.
Confira a entrevista na íntegra:
Como a igreja no Irã vê os bombardeios realizados por Israel em junho do ano passado e a nova ação conjunta com os EUA que resultou na morte de Ali Khamenei?
Sarah Nour: “Citarei a resposta do nosso especialista em Desenvolvimento Organizacional sobre o Irã: ‘Como iraniano e cristão, falo com o coração pesado. Não celebro a guerra, nem levo na brincadeira o sofrimento que ela traz para as famílias comuns — no Irã e agora, em toda a região. Toda vida é preciosa perante Deus. Contudo, como iraniano, também não posso ignorar o profundo anseio por liberdade que habita o coração do nosso povo há gerações. Se este momento doloroso se tornar um ponto de virada rumo à justiça e à verdadeira liberdade, então minha oração é que ele leve não a uma destruição ainda maior, mas à restauração da dignidade, da esperança e da paz’.
Como seguidores de Cristo, oramos pela proteção dos inocentes, pela moderação entre os líderes e por um futuro onde o Irã possa conhecer a liberdade sem medo. Que Deus traga luz das trevas e paz da turbulência.
No Brasil, assim como no resto do Ocidente, parte da Igreja se opõe às ações militares contra o regime iraniano, apesar de reconhecer que se trata de um governo opressor. O que você diria aos cristãos sobre a situação no país?
SN: “A Igreja no Irã, seus irmãos, têm permanecido resilientes, em oração e profundamente enraizados na esperança. Este momento não se trata de vingança ou triunfo, mas da possibilidade de um futuro diferente para eles. Um futuro onde a liberdade de consciência, a dignidade e a justiça sejam estendidas a todos os iranianos, independentemente de fé ou origem. Pedimos que orem para que este seja um ponto de virada que abra caminho para a paz, a reconciliação e a verdadeira liberdade para o Irã. Orem conosco para que o futuro reserve liberdade religiosa, a libertação dos cristãos detidos e de outras minorias religiosas que foram presas por acusações relacionadas à fé, e que nossa família possa compartilhar sua fé sem medo nem opressão”.
Há relatos de dezenas de mesquitas fechadas no Irã devido à falta de fiéis, bem como relatos de muitas conversões ao Evangelho, mesmo com legislação adversa. Esses relatos representam a realidade?
SN: “É verdade que nos últimos anos (década) a igreja no Irã continuou a crescer, com muitos se convertendo a Cristo. Nossa estimativa é que haja cerca de 800.000 convertidos ao cristianismo no Irã hoje.
O fechamento de mesquitas não está particularmente relacionado ao crescimento da igreja, mas devido à opressão, há uma rejeição evidente na sociedade à ideia de religião como um todo. Muitos estão profundamente decepcionados com o Islã, que deixou o país sob pesadas sanções por anos, uma grave crise econômica, uma repressão agressiva a protestos pacíficos e agora uma guerra… De alguma forma, as pessoas no Irã perderam a confiança na religião por causa da representação que viram das autoridades. Esta pode ser uma razão muito válida para muitas mesquitas estarem vazias, as pessoas estarem fartas e não praticarem mais suas crenças, incluindo orar nas mesquitas”.
Como os cristãos iranianos se reúnem para adorar?
SN: “Como mencionei anteriormente, a conversão ao cristianismo no Irã é frequentemente interpretada como um ‘crime’ pelas autoridades e, portanto, os cristãos de língua persa não têm permissão para entrar em igrejas armênias e assírias (que ainda podem funcionar como locais de culto). Isso levou os convertidos ao cristianismo a esconderem sua fé, muitas vezes se reunindo em igrejas domésticas secretas.
Os locais de encontro mudam com frequência, o uso de palavras-código é comum devido ao monitoramento e, quando se reúnem, os cânticos de louvor são sussurrados, mas eles estudam a palavra de Deus juntos e se concentram no discipulado e no crescimento espiritual. Muitas igrejas domésticas dependem de líderes fora do Irã devido à falta de líderes e/ou recursos dentro do país. No entanto, a fé ousada e o testemunho desses mesmos cristãos que se reúnem em segredo levaram muitos a Cristo. Deus está agindo neste país, transformando vidas e dando esperança a uma sociedade que precisa desesperadamente dela”.
Quais são os maiores desafios enfrentados pela Igreja no Irã?
SN: “Para os convertidos no Irã, seguir Jesus traz desafios significativos. Muitos enfrentam a rejeição de suas famílias, a pressão de suas comunidades e o risco de prisão, interrogatório e encarceramento pelas autoridades. Quando as igrejas domésticas são expostas, a comunidade se dispersa e as pessoas rompem os laços entre si para evitar maiores problemas. A repressão às igrejas domésticas cristãs aumentou, e muitos cristãos foram detidos, interrogados brutalmente e condenados a longas penas de prisão simplesmente por se reunirem, orarem ou serem batizados.
Uma cena comum entre muitos cristãos que conheci é a seguinte: durante uma reunião de uma igreja doméstica, ouvem-se batidas na porta. Geralmente são homens vestidos com trajes de serviços secretos, que entram na casa, prendem alguns, confiscam celulares e laptops, levando muitos, senão todos os presentes, para salas de interrogatório. São presos sob acusações como ‘ameaça à segurança nacional’, ‘conspiração’ e ‘propaganda contra a religião’.
No caso da República Islâmica do Irã… Essas acusações se referem a atividades cristãs como orar, realizar batismos, participar da comunhão e celebrar o Natal… No entanto, todas essas ‘táticas’ para assustar e impedir a igreja não prejudicaram o ministério em geral dentro do país”.
O Irã ocupa a décima posição na Lista Mundial de Perseguição elaborada anualmente pela Missão Portas Abertas, elencando os 50 países mais hostis aos cristãos e à pregação do Evangelho.