A escritora, professora bíblica e compositora Jackie Hill Perry afirmou, durante participação na conferência Passion 2026, que a fé cristã apresenta um paradoxo em que a salvação não é mérito humano, mas da entrega e morte de Jesus Cristo na cruz. A mensagem foi apresentada a milhares de pessoas reunidas no Globe Life Field, em Arlington, no Texas, segundo o texto.
Perry iniciou com uma referência ao filme Titanic (1997), ao mencionar a cena em que Jack Dawson morre para que Rose DeWitt Bukater sobreviva, e citou o debate recorrente sobre se os dois poderiam ter sido salvos por uma porta flutuante. “As pessoas amam os salvadores”, disse ela. “Nós amamos os heróis. Amamos aqueles que se sacrificam pelo bem maior. O que não gostamos são daqueles que se salvam sozinhos”.
A autora afirmou que a cena permanece na memória, em parte, por expor uma tensão ligada à natureza humana. “É por isso que essa cena fica marcada na nossa memória”, disse. “Todos nós queremos ser como o Jack. Mas, na verdade, somos como a Rose”.
Ao ler Lucas 23:32–43, Perry concentrou sua exposição no momento em que Jesus é crucificado entre dois criminosos e é zombado por líderes religiosos, soldados e por um dos homens ao seu lado. Segundo ela, o desafio repetido ao redor da cruz era o mesmo: “Salve-se a si mesmo”.
Perry disse que essa exigência aparece em diferentes pontos da narrativa dos Evangelhos, citando, no texto, a tentação no deserto e a reação de Pedro diante da perspectiva de sofrimento do Messias. Em cada caso, afirmou, a tentação seria usar o poder divino para preservar a vida e evitar o sofrimento. “Mas eles não sabiam o que estavam pedindo”, disse. “Eles não tinham lido o roteiro”.
Na sequência, Perry citou uma explicação atribuída ao cineasta James Cameron sobre a morte de Jack em Titanic: “Está escrito na página 147 do roteiro que Jack morre”. A autora disse que o mesmo raciocínio se aplica à crucificação, ao afirmar que a morte de Jesus era central. “O homem no meio da cruz não é quem precisa ser salvo da morte”, disse ela. “Somos sempre nós”.
Perry descreveu a crucificação “de trás para frente” a partir do Evangelho de Lucas, passando pela condenação por líderes religiosos, a traição de Judas, a oração no Getsêmani, a Última Ceia e declarações sobre o nascimento e a identidade de Jesus. Ela afirmou que cada etapa reforçaria, em sua leitura, que a morte de Cristo fazia parte do plano redentor de Deus.
Ao mencionar a genealogia apresentada por Lucas, que traça a linhagem de Jesus até Adão, chamado de “filho de Deus”, Perry disse que Cristo aparece inserido na história humana e, ao mesmo tempo, acima dela, como alguém qualificado para lidar com o problema do pecado. “Aqui está o Filho de Deus”, disse ela, “sendo morto como um pecador”.
Perry afirmou que os dois homens crucificados ao lado de Jesus eram culpados e haviam infringido a lei romana e a lei de Deus, enquanto Jesus, em contraste, “não havia cometido pecado”, mas suportava a punição dos culpados. Para explicar essa lógica, a autora recorreu a Gênesis 3 e disse que, com o pecado de Adão, a morte entrou na condição humana, incluindo separação espiritual de Deus. “O salário do pecado é a morte”, afirmou. “Toda pessoa que já nasceu nasceu merecendo a morte”.
Ainda segundo Perry, o texto de Gênesis apresenta uma promessa de resgate por meio de um descendente que seria ferido por Satanás, mas que, ao fim, o venceria. Ela afirmou que essa promessa encontra cumprimento em Jesus, descrito como nascido de uma virgem, sem pecado e capaz de vencer o pecado e a morte. “Jesus não estava na cruz porque era um criminoso”, disse ela. “Ele estava na cruz porque nós somos”.
Ao retornar à expressão “Salve-se a si mesmo”, Perry afirmou que a frase revela mais sobre a humanidade do que sobre Cristo, ao descrever o impulso de buscar soluções próprias para medo, insegurança e culpa. “Usamos nossos dons para nos livrar de certas inseguranças. Usamos nossos amigos para nos livrar daquilo que falta aos nossos pais. Usamos drogas e substâncias tóxicas para nos livrar da ansiedade e do tédio. Usamos até o legalismo, disfarçado de fé, para nos livrar do arrependimento verdadeiro. Estamos sempre tentando nos salvar de alguma coisa, e isso acontece porque não acreditamos que o que Cristo realizou na cruz seja capaz de salvar completamente”, disse ela.
Perry declarou que, para a “mente natural”, um Salvador crucificado parece incapaz de lidar com culpa, vergonha e pecado, mas afirmou que as Escrituras associam a salvação àquilo que é visto como fraqueza. “Reis não são crucificados”, disse ela. “A menos que o Rei seja Javé.”
Um trecho destacado por Perry foi a mudança de postura de um dos criminosos crucificados com Jesus. Segundo a autora, os relatos dos Evangelhos indicam que ambos zombaram inicialmente, mas que um deles, em determinado momento, repreende o outro e reconhece sua própria culpa. “O que aconteceu?”, perguntou ela. Perry sugeriu que um ponto de virada pode ter ocorrido quando Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
Ao descrever essa cena, Perry afirmou que Jesus foi condenado injustamente e insultado, e disse que, mesmo assim, respondeu com perdão. “Jesus foi condenado injustamente. Jesus foi espancado. Ele tem uma coroa de espinhos na cabeça. Suas mãos e seus pés foram perfurados até a madeira, e ali, entre os dois criminosos, Ele está pendurado nu enquanto todos abaixo Dele o insultam”, disse. Ela afirmou que a oração de perdão poderia ter despertado o criminoso para sua própria condição e para a inocência de Jesus, ao sugerir que, se havia perdão para os que crucificaram Cristo, poderia haver esperança também para um criminoso.
Perry afirmou que a salvação, no centro do episódio, não seria apenas livramento de sofrimento ou de consequências terrenas. Segundo ela, um dos homens queria ser salvo da cruz, enquanto o outro reconheceu a necessidade de ser salvo do julgamento de Deus e reconciliado com Deus. “Ser salvo por Deus é ser salvo de Deus para Deus”, disse.
Com base em Romanos 3, Perry explicou a expiação vicária, definindo-a como a ideia de que a morte de Jesus satisfaz a justiça de Deus e, ao mesmo tempo, estende misericórdia a pecadores. Ela afirmou que, por meio do sacrifício, Deus permanece “justo” e “justificador” dos que têm fé.
Perry destacou o pedido final do criminoso: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”, e disse que a frase evidencia fé ao reconhecer realeza e autoridade em Cristo apesar da aparência de fraqueza. Para reforçar a ideia, ela citou uma história atribuída ao pregador Alistair Begg, que imagina o ladrão chegando ao Céu sem obras religiosas a apresentar, com apenas uma explicação. “O homem na cruz do meio disse que eu podia vir”, concluiu Perry.
Após a mensagem, houve um momento de adoração conduzido pela artista Brooke Ligertwood. O The Christian Post registra que o movimento Passion foi fundado em 1995 por Louie Giglio e Shelley Giglio com o objetivo de incentivar universitários a viverem pelo que a organização descreve como “o nome e a glória de Jesus”, e menciona, como outros palestrantes na conferência, Earl McClellan, Jonathan Pokluda e Sadie Robertson Huff.